O CDI vai cair? A curva de juros conta uma história diferente

A curva recua no curto prazo, mas mantém juros elevados até 2036 — e muda a estratégia de quem investe em renda fixa.

Tempo de leitura : 4 minutos , 850 palavras

A atualização da curva de juros em 1º de setembro de 2026 reforça uma mensagem importante para o investidor: pode haver redução dos juros no curto prazo, mas o mercado continua longe de projetar um cenário de juros baixos para o Brasil.

Na comparação com 1º de junho, a mudança é significativa.

A projeção para 2026 caiu de 14,11% para 13,61%, sinalizando expectativa de algum alívio mais imediato. A partir de 2028, porém, praticamente toda a curva foi reprecificada para cima.

O futuro ficou mais caro

Veja a mudança nos principais pontos:

Ano01/06/202601/09/2026Variação
202614,11%13,61%−0,50 p.p.
202713,74%13,84%+0,10 p.p.
202813,61%14,55%+0,94 p.p.
202913,84%14,81%+0,97 p.p.
203013,99%14,88%+0,89 p.p.
203114,24%15,01%+0,77 p.p.
203214,15%14,76%+0,61 p.p.
203313,92%14,49%+0,57 p.p.
203413,76%14,47%+0,71 p.p.
203513,86%14,36%+0,50 p.p.
203614,15%14,73%+0,58 p.p.

O contraste é claro: o curto prazo melhorou, mas o médio e o longo prazo ficaram mais caros.

Entre 2028 e 2031, as taxas subiram entre 0,77 e 0,97 ponto percentual em apenas três meses. Isso não é uma oscilação marginal. É uma mudança relevante na percepção de risco.

O mercado não está comprando a tese de juros baixos

A curva começa em 13,61% em 2026, passa para 13,84% em 2027 e depois sobe rapidamente:

2028: 14,55%
2029: 14,81%
2030: 14,88%
2031: 15,01%

Portanto, uma eventual redução inicial da Selic não deve ser confundida com o início de um longo ciclo de juros baixos.

A mensagem parece ser outra:

Os juros podem cair no curto prazo. Mas o mercado não acredita, neste momento, que permanecerão baixos.

Esse comportamento já estava presente na atualização anterior do RDB Direto, quando observávamos forte reprecificação da parcela intermediária e longa da curva. A fotografia de setembro mantém essa característica.

2031 chama a atenção

O ponto mais alto da curva está em 2031, com 15,01% ao ano.

Em junho, esse mesmo vencimento indicava 14,24%.

São 77 pontos-base de diferença.

E, mesmo depois desse pico, a curva não retorna para patamares baixos: 2032 aparece em 14,76%; 2033 em 14,49%; 2034 em 14,47%; e 2035 em 14,36%.

Mais significativo ainda: em 2036 a taxa volta a subir para 14,73%.

Ou seja, mesmo no horizonte de dez anos, o mercado não projeta uma convergência clara para juros nominais significativamente menores.

O que isso significa para quem investe em CDI?

Para o investidor pós-fixado, essa curva traz uma informação relevante.

Se os juros efetivamente permanecerem elevados por vários anos, investimentos remunerados a bons percentuais do CDI continuarão oferecendo retornos nominais bastante competitivos.

Isso diminui a necessidade de alongar excessivamente os investimentos simplesmente pelo receio de uma queda rápida do CDI.

Em outras palavras: não parece haver urgência para abandonar o pós-fixado.

Ativos com boa qualidade de crédito, remuneração competitiva, liquidez adequada e, quando disponível, garantia do FGC, continuam merecendo espaço na carteira.

E os prefixados?

Aqui está um dos pontos mais importantes para o investidor.

Uma taxa prefixada de 15% ao ano parece muito elevada quando comparada apenas com o CDI atual.

Mas será que é realmente excepcional?

Depende do prazo.

Se a curva já projeta 14,81% para 2029, 14,88% para 2030 e 15,01% para 2031, um prefixado de 15% para prazo semelhante pode simplesmente estar acompanhando aquilo que o mercado já exige.

Por isso, a pergunta não deve ser apenas:

“Qual é a taxa?”

Mas:

“Qual é a taxa para esse prazo e para esse risco?”

Se houver risco de crédito privado, o investidor deveria exigir ainda um prêmio adicional sobre a referência soberana ou interbancária.

Pós ou prefixado?

Não existe uma resposta única.

O pós-fixado preserva a exposição às taxas elevadas caso o CDI permaneça alto por mais tempo.

O prefixado, por outro lado, permite travar uma remuneração elevada hoje e pode ser muito interessante caso os juros efetivamente realizados no futuro fiquem abaixo daqueles atualmente precificados.

A decisão deve considerar conjuntamente taxa, prazo, liquidez, risco de crédito e proteção disponível.

O gráfico não é uma previsão

Há uma ressalva fundamental.

Esses números não representam uma previsão exata de quanto será o CDI em cada ano.

São taxas implícitas extraídas da curva negociada pelo mercado, que podem mudar rapidamente diante de novas informações sobre inflação, política fiscal, atividade econômica, câmbio, política monetária ou cenário internacional.

Como destacamos na análise anterior, a curva deve ser interpretada como uma fotografia das expectativas e dos prêmios exigidos pelo mercado naquele momento.

O gráfico não mostra quanto será o CDI no futuro. Mostra quanto o mercado exige hoje para assumir o risco desse futuro.

Conclusão

A comparação entre junho e setembro deixa uma mensagem bastante clara.

O mercado admite algum alívio dos juros no curto prazo, mas ficou muito mais cauteloso em relação aos anos seguintes.

Entre 2028 e 2031, as taxas aumentaram quase 1 ponto percentual em alguns vencimentos. Em 2031, chegaram a 15,01%, e mesmo em 2036 permanecem em 14,73%.

Para o investidor de renda fixa, isso mantém os pós-fixados competitivos e, ao mesmo tempo, cria oportunidades seletivas para travar boas taxas prefixadas.

A principal mensagem da curva de setembro pode ser resumida em uma frase:

Pode haver queda dos juros. Mas o mercado continua longe de acreditar em juros baixos.

Mais importante do que tentar adivinhar quando a Selic vai cair é avaliar quanto estamos recebendo, por quanto tempo e qual risco estamos assumindo para receber essa remuneração.

Valmir Duarte Costa 01 de setembro de 2026
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1 Comment on "O CDI vai cair? A curva de juros conta uma história diferente"

  1. Philipe | 19/10/2018 at 16:06 |

    Achei muito interessante essa projeção. . Vc tem um histórico de projeções? Tipo… uma projeção que Vc fez a 2-4 anos atrás para comparar com a realidade?

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